Ontem a mensagem que não queria receber chegou agrafado ao caderno dos recados do Colégio. Já há dois meninos infectados e mais de dez sob suspeita. Fiquei parada a olhar aquelas letras tão negras, à espera da onda de medo, que não chegou, mas que rapidamente se transformou num pranto de desespero e impotência. Só me apetecia enfiar no carro e partir com ele para o isolamento da casa da montanha, enfiarmo-nos naquela bolha segura de uma aldeia deserta, qual útero materno, e ficar lá, no meio da floresta, até a coisa passar. Racionalmente sei que não é possível, a vida chama por nós: o emprego, as reuniões, os congressos, as aulas, e claro os famosos objectivos do SIADAP para superar milimetricamente. Ainda assim, hoje não o consegui mandar para o colégio, (eu sei que é apenas adiar um problema), mas não consegui enfrentar a mera hipótese da possibilidade daquela roleta russa, da qual nada se sabe objectivamente. Ontem à noite fez-se a mochila, percorremos 50 km e até sexta-feira ele vai estar no miminho seguro dos avós…para a semana logo volto a tremer, e a pôr-lhe a mão na testa de cinco em cinco minutos!
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4 de novembro de 2009
O recado
Ontem a mensagem que não queria receber chegou agrafado ao caderno dos recados do Colégio. Já há dois meninos infectados e mais de dez sob suspeita. Fiquei parada a olhar aquelas letras tão negras, à espera da onda de medo, que não chegou, mas que rapidamente se transformou num pranto de desespero e impotência. Só me apetecia enfiar no carro e partir com ele para o isolamento da casa da montanha, enfiarmo-nos naquela bolha segura de uma aldeia deserta, qual útero materno, e ficar lá, no meio da floresta, até a coisa passar. Racionalmente sei que não é possível, a vida chama por nós: o emprego, as reuniões, os congressos, as aulas, e claro os famosos objectivos do SIADAP para superar milimetricamente. Ainda assim, hoje não o consegui mandar para o colégio, (eu sei que é apenas adiar um problema), mas não consegui enfrentar a mera hipótese da possibilidade daquela roleta russa, da qual nada se sabe objectivamente. Ontem à noite fez-se a mochila, percorremos 50 km e até sexta-feira ele vai estar no miminho seguro dos avós…para a semana logo volto a tremer, e a pôr-lhe a mão na testa de cinco em cinco minutos!23 de junho de 2009
Doeu
Quando o puto às 17.00 de sábado me foi buscar, com o pai, trazia um desenho para me oferecer e uma pergunta fatal: com aqueles olhos enormes de ver o mundo disse placidamente"agora já podes voltar a ser minha mãe outra vez?"
A lágrima não caiu mas ficou ao canto do olho.
A pergunta "será que valeu a pena?" tem-me assaltados os sonhos...
A lágrima não caiu mas ficou ao canto do olho.
A pergunta "será que valeu a pena?" tem-me assaltados os sonhos...
17 de maio de 2009
O puto em dia de Eurovisão I
Apareceu ao final da tarde na sala, vindo do seu quarto mágico, com uma folha escrita com letras garrafais em lápis de carvão. A folha tinha duas palavras: mar e amor.
Fiquei calada a olhar para este menino que aos 5 anos escreve sozinho as minhas palavras favoritas....
17 de março de 2009
Responsabilidade
Por favor, não os percam de vista, não se esqueçam deles dentro dos carros, não os deixem brincar em locais perigosos, não os deixem sozinhos em casa, não lhes larguem a mão, não os transportem de carro sem ser em cadeiras seguras, não os deixem sozinhos no jardim, nem ao pé de piscinas, ou mesmo na banheira. Percebam que eles não têm consciência dos perigos, que são crianças e que têm de ser protegidas .Por favor façam isso, é que as notícias dos média são piores de dia para dia.
Cuidar de crianças exige muita responsabilidade, toda a responsabilidade do mundo, e mesmo assim....
13 de março de 2009
15 de fevereiro de 2009
5 anos

Faz cinco anos que te ouvi chorar pela primeira vez, ainda dentro da mim, quando a Paula com gestos meigos mas assertivos te colocava em melhor posição para te retirar da minha barriga aberta num sorriso metálico. Faz 5 anos que eu e o pai (e toda a equipa que estava no bloco) te escolhemos o nome no preciso instante em que te pousaram sobre o meu peito. Faz 5 anos que todos os médicos da sala ficaram à espera que o pai desmaiasse e ele, em vez disso, fez a mais bonita reportagem fotográfica da sua vida. Faz cinco anos que me apaixonei por ti.
10 de fevereiro de 2009
Conversas no carro
-Mãe sabes que nasci no dia do amor?
- Sei, eu estava lá, nasces-te da minha barriga.
- Mãe e sabes que as pessoas dão beijos e flores no meu dia?
- Sei.
- E mãe, dar beijos e flores é fazer amor?
- Sim … de certa maneira sim…
- Então como é que é mesmo?
- Como é que é mesmo, o quê?
- Fazer amor, mãe?
- É quando dois adultos gostam muito um do outro e dão beijos e abraços e essas coisas…
- E não mete flores?
- Não filho, geralmente não mete flores.
- E é do amor que nascem os bebés?
- Sim...
- Sei, eu estava lá, nasces-te da minha barriga.
- Mãe e sabes que as pessoas dão beijos e flores no meu dia?
- Sei.
- E mãe, dar beijos e flores é fazer amor?
- Sim … de certa maneira sim…
- Então como é que é mesmo?
- Como é que é mesmo, o quê?
- Fazer amor, mãe?
- É quando dois adultos gostam muito um do outro e dão beijos e abraços e essas coisas…
- E não mete flores?
- Não filho, geralmente não mete flores.
- E é do amor que nascem os bebés?
- Sim...
- Tu e o pai fazem amor?
- Fazemos.
- Mas não devem fazer lá muito bem…
- Porque é que dizes isso?
- Porque eu não tenho irmãos! E os meus amigos tem todos irmãos, os pais deles devem fazer amor melhor que vocês…
[e agora como é que saio disto… o puto ainda nem tem 5 anos, anda num colégio católico, como é que lhe vou falar de sexo, de prazer, de contraceptivos, de erotismo… sem ele no dia seguinte fazer desmaiar alguma Irmã, ou se pôr de conversa com os outros filhos dos pais hipercompetentes que tem um rancho de filhos... e criar uma confusão dos diabos...
Mas bolas, também é chato o puto pensar que os pais são uns incompetentes em matéria amorosa só porque um filho lhes chega e sobra!]
- Fazemos.
- Mas não devem fazer lá muito bem…
- Porque é que dizes isso?
- Porque eu não tenho irmãos! E os meus amigos tem todos irmãos, os pais deles devem fazer amor melhor que vocês…
[e agora como é que saio disto… o puto ainda nem tem 5 anos, anda num colégio católico, como é que lhe vou falar de sexo, de prazer, de contraceptivos, de erotismo… sem ele no dia seguinte fazer desmaiar alguma Irmã, ou se pôr de conversa com os outros filhos dos pais hipercompetentes que tem um rancho de filhos... e criar uma confusão dos diabos...
Mas bolas, também é chato o puto pensar que os pais são uns incompetentes em matéria amorosa só porque um filho lhes chega e sobra!]
19 de janeiro de 2009
Conversas do puto
1. (conversa no banho, depois de uma festa de anos de um amiguinho do Colégio)
- Mãe sabes como é que se chama a mãe do G.?
- Sei, é Ana?
- Ana? Sim, quando a mãe ligou a responder ao convite da festa estava lá o nome dela ao lado do número do telemóvel, é Ana.
- Haaaaaaaaa…………
- E sabes como se chama o pai?
- Não …
- Chama-se Tio!
- Tio? (e começam as minhas gargalhadas). Ò filho o senhor não se chama tio, deve ter um nome como tu, como eu, como toda a gente….ele disse para os meninos o tratarem por tio porque é mais fácil, podes chamar tio aos pais dos teus amigos, tu não chamas tias e tios aos amigos da mãe e do pai?
- Não mãe, ele não é teu amigo, pois não, ele chama-se mesmo Tio!!! ( e faz beiço de birra) eu é que sei, eu é que estava lá!!!
2. (ele no quarto, eu na cozinha)
- Mãe, mãe, vem cá depressa?
- Aconteceu alguma coisa?
- Vem cá é uma urgência!
- Uma urgência… houve um acidente? Morreu alguém?
- Não, mãe…
- Então espera um bocadinho, que estou aqui a acabar uma coisa, já vou…
- Mas mãe, anda cá, é uma urgência assim, morna!!!!
-?
- Mãe sabes como é que se chama a mãe do G.?
- Sei, é Ana?
- Ana? Sim, quando a mãe ligou a responder ao convite da festa estava lá o nome dela ao lado do número do telemóvel, é Ana.
- Haaaaaaaaa…………
- E sabes como se chama o pai?
- Não …
- Chama-se Tio!
- Tio? (e começam as minhas gargalhadas). Ò filho o senhor não se chama tio, deve ter um nome como tu, como eu, como toda a gente….ele disse para os meninos o tratarem por tio porque é mais fácil, podes chamar tio aos pais dos teus amigos, tu não chamas tias e tios aos amigos da mãe e do pai?
- Não mãe, ele não é teu amigo, pois não, ele chama-se mesmo Tio!!! ( e faz beiço de birra) eu é que sei, eu é que estava lá!!!
2. (ele no quarto, eu na cozinha)
- Mãe, mãe, vem cá depressa?
- Aconteceu alguma coisa?
- Vem cá é uma urgência!
- Uma urgência… houve um acidente? Morreu alguém?
- Não, mãe…
- Então espera um bocadinho, que estou aqui a acabar uma coisa, já vou…
- Mas mãe, anda cá, é uma urgência assim, morna!!!!
-?
26 de dezembro de 2008
Repito-me a cada Natal
O espanto dos teus olhos enchem-me de ternura.
As gargalhadas cheias e soltas inundam-me de amor.
Olho-te e enterneço-me com a credulidade e a surpresa que manifestas em cada instante perante cada um dos embrulhos que correspondem a cada um dos teus sonhos.
Mergulhamos em papéis coloridos, fazemos batalhas de laços, besuntamo-nos de mousse de chocolate.
Sem dúvida, o Natal é das crianças que acreditam na suprema magia, como tu …
e eu.
As gargalhadas cheias e soltas inundam-me de amor.
Olho-te e enterneço-me com a credulidade e a surpresa que manifestas em cada instante perante cada um dos embrulhos que correspondem a cada um dos teus sonhos.
Mergulhamos em papéis coloridos, fazemos batalhas de laços, besuntamo-nos de mousse de chocolate.
Sem dúvida, o Natal é das crianças que acreditam na suprema magia, como tu …
e eu.
16 de novembro de 2008
A escola
Ontem à noite (depois de um seminário na faculdade), quando regressava a casa, com a cabeça a latejar, o peso do mundo às costas, e o peito apertado com a pergunta “porque é que me meti nisto?”, ouvi uma vozinha vinda do quarto dele: “Mãe, és tu? Já chegaste da escola primária?”.
3 de novembro de 2008
Ao domingo
Ao domingo namoramos muito, a dois, a três.
São as manhãs na cama, as cócegas e as gargalhadas, as bicicletas, ou o mar, ou os restaurantes à beira-rio. Ao domingo estamos mais tempo uns com os outros. Ao domingo conversamos mais, estamos mais disponíveis e atentos. Ao domingo somos mais felizes.
Ontem, domingo, no almoço a ver o rio, o nosso rapazinho de 4 anos, quando se falava do Natal e enquando tinha o olhar perdido no horizonte, pediu: “Pai, este Natal podes levar-me a ver o Kilimanjaro?” “o Kilimanjaro? ‘” perguntei, “ Sim mãe, aquela montanha mais alta de África, que foi um vulcão e que tem sempre neve no cimo, e eu adoro vulcões e montanhas e neve…”, respondeu impaciente, “aãh….”disse aparvalhada com tanto conhecimento enciclopédico, e fique com a sensação que ele e o pai acordaram ir daqui a uns anos…
Ontem, domingo, ao deitar, depois de lhe contar as estórias do costume, dei-lhe um enorme beijo e abraço de boa noite, e ao sair do quarto ouvi: “mãe, és tão linda, tão linda, como a acácia mais alta da savana”, respondi que também gostava muito dele e decidi não explorar mais a conversa.
São as manhãs na cama, as cócegas e as gargalhadas, as bicicletas, ou o mar, ou os restaurantes à beira-rio. Ao domingo estamos mais tempo uns com os outros. Ao domingo conversamos mais, estamos mais disponíveis e atentos. Ao domingo somos mais felizes.
Ontem, domingo, no almoço a ver o rio, o nosso rapazinho de 4 anos, quando se falava do Natal e enquando tinha o olhar perdido no horizonte, pediu: “Pai, este Natal podes levar-me a ver o Kilimanjaro?” “o Kilimanjaro? ‘” perguntei, “ Sim mãe, aquela montanha mais alta de África, que foi um vulcão e que tem sempre neve no cimo, e eu adoro vulcões e montanhas e neve…”, respondeu impaciente, “aãh….”disse aparvalhada com tanto conhecimento enciclopédico, e fique com a sensação que ele e o pai acordaram ir daqui a uns anos…
Ontem, domingo, ao deitar, depois de lhe contar as estórias do costume, dei-lhe um enorme beijo e abraço de boa noite, e ao sair do quarto ouvi: “mãe, és tão linda, tão linda, como a acácia mais alta da savana”, respondi que também gostava muito dele e decidi não explorar mais a conversa.
Fui para a cama a pensar que se o puto fosse mais velho era melhor ir saber das suas companhias e se não andavam a fumar nada ilegal, mas aos 4..., ou este miúdo tem o coração de um poeta africano ou o antibiótico para a otite tem alguns efeitos adversos estranhos…
24 de setembro de 2008
Constatações da Monoparentalidade
O puto faz-me descobrir todos os dias coisas novas.Boas e .....menos boas...
Neste post, que acredito se tornará numa imensa lista, vou tentar apontar as mais pertinentes...
1- (23/09)
O El Corte Inglês só tem um piso, o 4º!
2 - (24/09)
Sinto falta de falar com um adulto, depois das 17.00h!
3 - (25/09)
Um puto de 4 anos ocupa mais espaço na "minha cama" que um gajo de 40!
4 - (26/09)
Programa de sexta à noite: jantar fora, claro, mas....no IKEA?! Vivam as almôndegas suecas!
5 - (27/09)
Andar de eléctrico e lanchar na Benard pode ser um programa fantástico! (tão fantástico que no meio do lanche ouvi de uma boca besuntada de chocolate: "mãe tu és a minha melhor amiga!" )
6 - (28/09)
Andar de metro é inebriante e a estação das Olaias é "um planeta cheio de naves espaciais fantásticas" , que loucura! (sorte o puto não ter reparado nos aliens que por lá andavam a pastar...; sorte não termos sido assaltados...)
7 - (29/09)
Carregar 20 Kg, adormecidos, do carro até casa não é decididamente para mim ...
8 - (30/09)
Escolher um presente para a "amiga especial" foi um martírio. Correu dos livros, para os cd, cirandou entre os legos, olhou para um Action Man e acabou num "my sweet pony" cor-de-rosa (huf!!). Acho que estou a criar um filho que compreende as mulheres... (ou talvez não!). (Sábado (re)começa a peregrinação das festinhas de aniversário dos amiguinhos(as)...)
9 - (01/10)
O banho hoje foi muuuuito especial... depois de muita conversa, de uma tentativa de birra e do argumento:"se o meu pai estivesse aqui"...vingou a lei da mãe - resultado: mergulhou completamente vestido na banheira! Os olhos abriram-se de espanto (e de divertimento) mas ele percebeu que com uma mãe aborrecida o melhor é obedecer!
10 - (02/10)
"porque é que conduzes assim mãe? de certeza que vamos ter um acidente! e depois vamos para o hospital.... O pai costuma ir mais devagar, mãe!".
(pois costuma, porque ele não tem cartão de ponto, porque ele não tem horas certas para entrar, porque quando eu saio vocês ficam os dois a dormir, porque .... pena que não esteja cá para te levar!) calei tudo isto, contei até dez... e acelerei com uma imensa fúria dentro de mim!
11 - (03/10)
7.30h (entre duas colheradas de Cerelac) - "hoje é sexta, hoje é sexta, vamos jantar fora, vamos ao IKEA, não é mãe?" (acenei a cabeça, mas não respondi, porque senão a papa ficava a meio e corria o risco de me atrasar com a choradeira!)
12 - (04/10)
Levar um príncipe à festa da sua princesa favorita e vê-lo transformar-se num guerreiro da idade média em lutas na relva, assaltos a tendas, encontrões e pulos para poças de lama ao melhor estilo anuncio do skip, doi! o meu bebé está cada vez mais longe!
13 - (05 , 06 ..../10)Introdução de nova rotina...puto vomita, suja tudo, chora, tem diarreia, suja tudo, põe o termómetro,depois de muita negociação, toma benurom, baixa a febre, vomita outra vez, suja tudo, volta a subir a febre, toma brufene, tem diarreia.... vai ao Hospital... diagnóstico: gastroentrite viral... A mãe está dividida ou assume o papel de enfermeira, de negociadora de termómetros, ou de lavadeira. A mãe tem vontade de dar um tiro na cabeça. A mãe chora de desespero! A mãe está doente de sono e cansaço! A mãe está com urticaria ansiosa! A mãe não nasceu para isto!
14 - (07/10)
O puto, felizmente está melhor. Mas a mãe estoirou: começou a chora por tudo e por nada....
15-(08, 09,10/10)
A vida corre estupidamente normal. O trânsito da manhã, os meus palavrões (que lhe imploro para não repetir na escolas) senão as Irmãs desmaiam... a choradeira à porta do Colégio, o trânsito para o trabalho, o trabalho de m#$%&da, o trânsito de regresso ao Colégio, as filas à porta do Colégio com aquelas p##&% de tias que param as carrinhas no meio da rua para ir buscas os seus voçesinhos, com lugares vazios uns metros adiante, e depois o abraço, e depois a brincadeira, e depois o banho e depois o jantar ( com os restos que o pai ainda deixou cozinhados)e depois a minha cama ocupada a noite inteira e depois eu a ir dormir para a cama dele...
16-(11/10)
Decisão tomada! Vamos ter com o pai. São necessárias malas de viagem e o pai levou todas para o seu mês de campanha. Então vamos comparar novas e baratinhas à feira da Praça de Espanha. Quando dou por mim tenho o puto a dizer a um senhor de turbante, barba longa e unhas compridas "então não fazes isto mais barato? não tiras umas moedas?" o senhor acha-lhe tanta graça mais à minha aflição, que trazemos duas malas de viagem por 25 moedas. Mas o puto veio desconfiado, "mãe aquilo não era uma loja, não tinha máquina registadora!"
16-(12/10)
14.00h. Estamos a acabar de almoçar. Dentro de 10 minutos temos que sair de casa para ir à ante-estreia de uma peça infantil (sim, a minha vida social está resumida a programas para crianças) e oiço "mãe tenho o pé preso na cadeira!!!", "mãe, ajuda-me!!!!" e explode num vale de lágrimas sem fim. Olho perplexa para o cenário, tento acalma-lo, tirar o pé, mas o raio do pé não saí, como é que lá foi parar? . Penso: "Vou para o hospital com o puto e a cadeira? Sigo para o Tivoli com o puto e a cadeira? Vou bater à porta do vizinho?". O puto grita alto e bom som "Quero o meu paiiiiiiiiiiii!!!". Liguei ao pai. O pai acalmou-o pelo telefone, deu-me instruções para com um martelo alargar as barras da cadeira que lhe prendiam o pé... uff!! o pé saiu! a cadeira ficou amachucada... E lá fomos às gargalhadas para o teatro.
17- (14/10)
Ups! Desta vez fui eu.. a minha manhã começa em stress (acho que só respiro depois de passar o cartão pelo pica ponto antes das 8.30h) assim levantar, duche, vertir-me, acordar o puto, vesti-lo, dar-lhe o pequeno almoço e leva-lo ao colégio é feito em velocidade de cruzeiro... tão veloz sou que hoje ao estacionar rapidamente, mas de esguelha, à porta do colégio raspei com o carro no carro... da educadora... do puto !!! O carro dela é velho, velhíssimo, fui ver rapidamente e acho que não sofreu (mais) nada para além dos diversos danos que já tinha, por isso nem disse nada... e eu... passei a noite na garagem com massa de polir a esfregar os riscos pretos do meu... (nota: para não arranjar confusão assumo que menti ao puto, disse-lhe que raspei numa parede!)
18 - (17/10)
Não fomos ter com o pai. Decidimos de comum acordo. A mim, não me apetecia enfiar num avião por 3 dias, em regime estou com vocês mas tenho que continuar a trabalhar, quando me tinha prometido uma semana da férias em família. O puto, queria ir à festa de aniversário do seu melhor amigo, no fim-se-semana.
Ainda assim, fiquei neura, por isso, dia de férias para mim, fui por o puto ao colégio e ... spa cultural: papei dois museus e curti um cinema à tarde. Que bom que foi! Soube a reencontro comigo mesma. Ás vezes ser só mãe cansa...
18 - (18/10)
"Mãe podemos continuar a viver assim, só os dois, sozinhos?"... "É que o pai às vezes é um bocado chato!" (Bolas, será que o Èdipo já anda cá por casa? Ou o raio do puto é mesmo como eu: quem não está não faz falta?).
19 - (20/10)
Fomos ao aeroporto. Ele correu para os braços do pai. Brincaram o resto da noite com os carrrinhos novos no chão do quarto dele. Eu, fui para a cama ler.
Já acabou e afinal não custou nada. Passou tão depressa...
23 de setembro de 2008
Monoparentalidade

A partir de hoje sou, e serei por 30 dias, uma mãe solteira.
Claro que há o skype, e o msn e o telemóvel para matar as saudades.
Mas a logística está toda por minha conta. Estou exausta, ao fim do primeiro dia!
As minhas rotinas estão viradas do avesso!
Não sei se sobreviverei….
Decididamente, para mim, um filho é para ser vivido a dois.
(foto de Nuno Santos, retirada do Olhares)
11 de setembro de 2008
8 de setembro de 2008
A fuga da avó
Eu sei que és chato, mimado, teimoso e muitas vezes inconveniente.Perguntas porque é que o universo é azul-escuro e porque é que os espelhos reflectem a nossa imagem. Crias guiões de brincadeiras onde nós temos que repetir as deixas exactas que nos dás. Queres colo quando o caminho é longo. Exiges atenção continuada e contra-argumentas todas as nossas ordens.
Certamente, foste tudo isto e muito mais ... e a tua querida avó, que tinha assumido o compromisso de ficar contigo nas três semanas e meia até começar o colégio, ao fim de três semanas, fugiu de sua casa! Só faltavam três dias, mas mesmo assim ela fugiu…
Deixou-te(nos) sorrateiramente, sem aviso prévio, que permitisse encontrar em tempo útil qualquer solução ou alternativa. E tu choras. Choras porque sabes que tinhas direito a mais três dias de férias, choras porque estava combinado que domingo à noitinha voltavas para casa da avó, choras porque ficaram lá os teus brinquedos, e os livros e a bicicleta.
Mas não é de estranhar este, como direi ... incidente.
A tua avó fugitiva é a mãe pela qual me senti tantas vezes abandonada.
Culpo-me.
Porque é que não fui capaz de antever que a ti te poderia fazer o mesmo?
Porque quis querer que ela seria capaz de te dar o amor que não me deu?
Errei.
Mas prometo-te meu filho, que não permitirei que tal volte a acontecer.
Assim, como único desfecho possível, começaste hoje oficialmente o infernal périplo de te passeares entre o trabalho da mãe e do pai, confundir os nossos horários, agendas e ritmos de trabalho e aborreceres-te até à infinitésima partícula de ti.
Desculpa.
Culpo-me.
Porque é que não fui capaz de antever que a ti te poderia fazer o mesmo?
Porque quis querer que ela seria capaz de te dar o amor que não me deu?
Errei.
Mas prometo-te meu filho, que não permitirei que tal volte a acontecer.
Assim, como único desfecho possível, começaste hoje oficialmente o infernal périplo de te passeares entre o trabalho da mãe e do pai, confundir os nossos horários, agendas e ritmos de trabalho e aborreceres-te até à infinitésima partícula de ti.
Desculpa.
22 de agosto de 2008
Nome Olímpico
Quando foi necessário escolher o nome do puto, foi um drama, todos os que eu escolhia, não agradavam: ora ao pai, ora à avó, ora à tia, ora à prima, ora… ao carteiro. Porque era nome de bicho, porque era nome de gay (e depois?), porque fazia lembrar um primo palerma, porque em adulto não ficaria bem com um título académico (?), porque este familiar podia levar a mal porque era o nome de um outro parente, ora isto, ora aquilo.Assim, já aborrecida com as discussões e opiniões adiei o problema até lhe ver a cara.
Mas no bloco de partos, (já com a barriga aberta como uma melancia em tarde de Verão) e o puto deitado em cima de mim, a discussão volta a instalar-se, desta vez, entre mim, o pai, o anestesista, o neonatologia e os dois obstetras de serviço: “olhe que tem cara disto”; “ ai, não, não, tem cara daquilo”; “olhe que ele não vai gostar”; “ com esse, na escola podem gozar” ; “ não ponha esse porque depois na escola fica para o fim nos exames”…, até que depois de sábia escolha acompanhada de convincentes e históricos argumentos da mãe (entretanto a ser cozida como um peru recheado para a ceia de Natal), a unanimidade e a calma regressaram àquele bloco de doidos, inundado de gargalhadas.
O puto gosta do seu nome. Já questionado várias vezes, sobre a hipótese de ter outro nome, recusa e prefere sempre o dele. Fico contente, porque parece que esta sábia mãe (como sempre) acertou.
A conversa do nome do puto vêm agora à baila, 4 anos e meio depois de ter sido escolhido, porque o pai invariavelmente quando o quer irritar lhe chama Nelson, sobretudo quando há parvoíce envolvida (ou por parte de um ou de outro). Lá em casa, Nelson assumiu a forma de adjectivo qualificativo equivalente a disparatado ou palerma. Ora, a partir de ontem e tendo em conta que um dos únicos quatro atletas nacionais (os outros foram Carlos Lopes em 1984, em Los Angeles, Rosa Mota em Seul, em 1988 e Fernanda Ribeiro em 1996, em Atlanta - informação CM on-line) que desde os tempos imemoráveis de todas as participações na era moderna desta tão nobre competição, conseguiu atingir o patamar de ouro de Olimpo, se chamar Nelson, parece-me desrespeitoso continuar a usar tal nome para tal fim. Vou ter que falar com os rapazes sobre o assunto. Já agora, como é que se chamava aquele rapaz que supostamente deveria ter lançado qualquer coisa pelo ar, mas gosta mais de passar a manhã na caminha?
3 de julho de 2008
O puto maravilha.
Ontem à noite, na hora da estória, disse ao puto do meu cansaço e stress do dia e rematei : "hoje só leio uma, estou exausta". Em vez da refilice expectável respondeu-me: "vira-te para eu te amachucar os ombros". Desconfiada obedeci, em cima da cama dele, barriga para baixo e ... recebi a melhor massagem dos últimos tempos! Que bela amachucadela, de ombros e de calcanhares. Vou querer todas as noites!
Que belo filho que tenho! Aos 4 anos é o melhor massagista lá de casa.
Que belo filho que tenho! Aos 4 anos é o melhor massagista lá de casa.
2 de junho de 2008
O clube do Portugal
Voltamos para casa. Atravessamos pela milionésima vez a cidade. Em regra, discutimos marcas e modelos de automóveis, lemos matrículas, mas ontem a conversa foi outra:- Mãe, aquilo ali, verde e encarnado é uma bandeira de Portugal!
Respondo, pausadamente, porque antecipo já o final da conversa.
- Pois é, aquela é a bandeira do nosso país. Hoje estiveram a aprender bandeiras de países, no colégio? (vã tentativa de mudar a conversa) Tu já conheces outras, não é? A do Canadá que tem aquela folha do Outono, a dos EUA que tem riscas e estrelas…
- Mãe porque é que as janelas tem bandeiras de Portugal? Olha ali tantas!
- Sabes, as pessoas às vezes têm comportamentos esquisitos, sei lá porque é que as pessoas estendem as bandeiras, olha, se calhar tinham em casa bandeiras sujas e resolveram pôr a lavar e a secar, (a isto chamo aldrabar por uma boa causa).
- Não mãe! É por causa do futebol que vamos jogar com os clubes inimigos! E nós não temos uma bandeira. (afinal já não consigo enganar um pirralho de 4 anos! Ó meus deuses, isto está a complicar-se...)
- Não filho, não temos nenhuma bandeira e as selecções dos outros países não são inimigas de ninguém. Esta confusão toda são só uns crescidos a jogar à bola, como tu jogas com os teus amigos, isso não tem interesse nenhum filho!
-E não pudemos ter uma bandeira?
- E para o que é que tu queres uma bandeira nacional?
- Para pôr à janela mãe! Por causa do futebol!
- Nem pensar, não há cá bandeiras à janela, nas minhas janelas, não!
- Mas mãe, porquê? Eu na sala do colégio tenho uma.
- Então, se tens no colégio não precisas de mais nenhuma.
- Mãe, tu não és do clube do Portugal, pois não?
- Não filho, não sou desse clube.
- Então é melhor falar com o pai!
(Fico calada perante argumento tão forte, lá se vai reunir a confraria masculina contra mim, sobra-me a cadela. Juro que vou treina-la para com um belo puxão rasgar o raio de uma eventual bandeira. Sim, porque eu não vou desistir desta minha luta anti-parvalheira nacional.)
5 de maio de 2008
O parque infantil do Jardim da Estrela
O Jardim da Estrela tinha um parque infantil com brinquedos velhos e areia sebenta, (onde o meu olhar de mãe via colónias de micróbios em êxtase), que se infiltrava nos pés, na roupa e na paciência. E assim, ficámos contentes com as anunciadas obras de requalificação. Começámos a ver instalar, devagarinho, os novos equipamentos, um leão, uma girafa, baloiços novos e mais uns quantos divertimentos. Esperámos longos meses pela conclusão das obras. Mas, este fim-de-semana, quando voltamos ao parque, o A. ficou muito triste e não quis ir brincar e eu fiquei zangada, ou melhor furiosa. O novo parque infantil já abriu, com os novos brinquedos mas, pasme-se, com cascalho no chão. Parece que a obrigação comunitária de colocar pavimento anti-choque nas zonas de brincadeiras dos mais pequenos se aplica aos colégios e a todas as áreas de lazer que conheço na cidade (Parque dos Índios, Parque da Serafina, Jardim de Campo de Ourique, e tantos outros pequenos equipamentos por aí espalhados), mas no Jardim da Estrela não, com toda a certeza alguém achou que a proximidade da Basílica, de alguma forma, deveria divinamente proteger os nossos meninos de danos maiores…Cascalho no chão, se não tivesse visto e apalpado com estas mãos que teclam furiosamente, eu não acreditaria!
Resolvi investigar o assunto na Net e entre comunicações de inaugurações e afins da CML descobri esta mensagem do Presidente da Junta de Freguesia da Lapa ao Senhor Vereador Dr. José Sá Fernandes, que aqui reproduzo :
Assunto: Parque Infantil do Jardim da Estrela
Venho por este meio fazer algumas considerações em relação ao Parque Infantil do Jardim da Estrela:
a) É com grande espanto que verifico que o Parque Infantil ainda não está terminado afectando largas centenas de crianças que semanalmente se deslocam a esse espaço.
b) Verifico também com espanto que o n.º de aparelhos colocados no Jardim Infantil é diminuto, não oferecendo, grande oferta, nem dignificando o espaço adjacente.
Venho por este meio fazer algumas considerações em relação ao Parque Infantil do Jardim da Estrela:
a) É com grande espanto que verifico que o Parque Infantil ainda não está terminado afectando largas centenas de crianças que semanalmente se deslocam a esse espaço.
b) Verifico também com espanto que o n.º de aparelhos colocados no Jardim Infantil é diminuto, não oferecendo, grande oferta, nem dignificando o espaço adjacente.
c) Verifico também com espanto que em vez de terem colocado piso amortecedor e protector de quedas, como exigem as Normas Comunitárias e como estão a ser implementados pela grande maioria da Câmaras, a CML numa atitude economicista voltou a colocar areia ou areão.
d) Que me lembre além da falta de segurança um dos motivos apresentado pela CML, e pela Divisão de Jardins para o encerramento do antigo Parque Infantil, foi a falta de higiene provocada pela a areia existente. Pensava eu e todos os frequentadores do Jardim que a situação ia mudar.
e) Não é em vão que as normas antigas exigiam que estes espaços tinham de ter uma altura mínima de 35cm e uma altura máxima de 60cm e que essa areia devia ser mudada de meio em meio ano e lavada todos os meses, algo que nunca foi feito.
f) Todos nós sabemos se no passado recente a Divisão de Jardins nunca o fez, não é agora que o vai fazer.
f) Todos nós sabemos se no passado recente a Divisão de Jardins nunca o fez, não é agora que o vai fazer.
g) Não é por acaso que no ultimo ano, a Junta de Freguesia da Lapa, alem de ter lutado por este novo Parque Infantil e de se ter oposto por duas vezes ao seu encerramento e dado que a CML, nunca se preocupou, com a higiene, resolveu contratar uma Empresa de Desbacterização que duas vezes por mês, limpava a areia e eliminava todas as baterias nocivas à saúde, tudo isto sem qualquer apoio da Vereação.
h) Será que voltamos ao mesmo, ou estamos perante uma irresponsabilidade de contenção de custos, sem olhar o bem estar e a segurança dos nossos filhos. Com os melhores cumprimentos.
O Presidente da Junta de Freguesia da Lapa, Nuno Ferro
Publicado em: 16 de Abril de 2008
O Presidente da Junta de Freguesia da Lapa, Nuno Ferro
Publicado em: 16 de Abril de 2008
Eu bem me cheirava que havia politiquice misturada na coisa, mas logo com o Dr. Sá Fernandes, que me parecia um incorruptível homem de bem e se apresenta como um paladino da moral e dos bons costumes. Se já não se pode confiar a segurança dos nossos filhos a um super-homem da ética, então confia-se em quem?
7 de abril de 2008
Os custos das crianças
A discussão sobre o montante das custas judicias dos processos de adopção que ocuparam todo o fim-de-semana, e onde parece o Governo recuo mais uma vez, irritaram-me solenemente. Só mesmo que não tem filhos, nem está preparado para os ter, pode reclamar pagar 500 e tal € pelo processo.·Caros pretendentes a pais, esse montante é ínfimo relativamente aos custos que vão ter que assegurar quando forem pais de facto, e se não o podem, nem querem pagar então o melhor é desistir já.·Acaso sabem quanto custam as fraldas, e os leites e as papas, e os cremes para as borbulhinhas do rabiosque? E as consultas mensais ao pediatra (que é bom que seja privado para nos dar o número do telemóvel e nos esclarecer as nossas angustias de mães e pais a qualquer hora)? E quanto custam as creches (só aí vão os famigerados 500 € tão discutidos)? E as vacinas que estão fora do plano nacional de vacinação? E quanto custam os brinquedos e as idas à piscina? E quanto custa vestir e calçar aqueles pequenos seres que milagrosamente crescem todas as noites?·
E agora vamos conversar sobre os custos prévios ao nascimento da criança: as consultas mensais do obstetra (que é bom que seja privado para estar disponível quando realmente é preciso), as ecografias, a amniocentese (que o Estado só paga quando temos mais de 40 anos), as meias de descanso, a roupa de grávida, o enxoval do bebé e por fim os colossais custos com a maternidade, que é bom que seja privada para que o médico que nos assistiu durante a gravidez seja o que nos faz o parto, a ainda para que nós, as mães e os filhos, sejamos bem tratados e não se corram riscos desnecessários como anoxias neonatais e outras que tais, porque num público uma cesariana é feita quando existe equipa e quando se ultrapassaram todos os limites de qualidade de vida da mãe e/ou do filho.
Podia continuar uma infindável lista de custos, ainda maiores se a criança tiver deficiência ou uma qualquer doença crónica …·
Podia continuar uma infindável lista de custos, ainda maiores se a criança tiver deficiência ou uma qualquer doença crónica …·
E depois de tudo isto volto a repetir convictamente, quem não quer ou não pode pagar custas de um processo de adopção, certamente não poderá suportar a despesa de ter um filho… È que não é por acaso que a maioria dos casais só tem um, é porque de facto ter um filho é um luxo, muito, muito caro!
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